quinta-feira, dezembro 18, 2025

Suicídio por enforcamento

               In Memoriam Dionísia das Figueiras

Nunca te vi e sinto-te aqui,

na angústia de todos os dias,

nas horas mortas, nas tardes quentes,

nas tristezas vãs, nas suaves alergias.

 

E a aquela criança a chorar?

e aquela esperança a brotar?

 

Foste-te nos teus termos, por tuas mãos,

num abraço de vítima e de algoz,

de encontro marcado com vulto

sinistro da gadanha e do capuz.

 

Seria teu o espectro que à tarde ouvia?

Seria apenas o piar da cotovia?

Seria teu o sangue nos ovos das ciganas,

velhas sinas, maldições e certas patranhas.

 

Nunca te vi e sei aqui,

num vulto do luto que não se conhece,

nunca te vi, mas também te bati,

se não era eu por ele, era ele por mim.

 

Noite triste, taberna escura, copos virados

ciúmes, traições, corpos virados

sem o saberem, corpos apenas,

diabos, anátemas e contradições.

 

Da rosa não se sabe o nome,

tem moldura por ternura,

viúva em flor, paixão de amor,

e uma sede por aclamar,

uma ânsia de criar,

um saber tão só amar.

 

E a aquela criança a chorar?

e aquela esperança a brotar?

 

Era tarde, mais de meio dia,

o vinho envenenou a alquimia,

sossega no regaço dos teus,

de baraço ao pescoço 

te entregas a Deus.


Miguel Raimundo
23/05/2025, 18h-23h05


sexta-feira, agosto 08, 2025

inveja

 
desejo absorto nesse teu seio,

suspirando por ti, por outro meio.

viver dos outros a vacuidade,

a beleza, a fortuna, a sageza: tudo odeio.

 

este mal de inveja alheio,

doença que alastra ao mundo cheio,

num terror secreto e sem idade:

um esgar de guerra, um olhar feio.

 

é tua ou minha a propriedade?

pois o “reino do ter” é vosso esteio.

a vida e o ser podem ser freio,

 

desse luxo perene da vaidade,

sem dor, sem morte ou outro anseio

da sorte dos outros que te não proveio.   

MR

Balancho/Santarém, 28/06/2015(23h45)






quinta-feira, junho 12, 2025

200 e tal no avião e 7 do curdistão

Morreram duzentos e tal de avião,

só sete ou mais do "curdistão",

diz-se: "dez eram portugueses",

outros carneiros, mães e filhos de más rezes.

 

Somos aqui a clamar apenas dos que choram,                                                                 

como se a dor e a morte na China,

fossem menos más que a do zé da esquina.

Na esquina morre o zé, a maria, o abrunhosa,

morre a tua tia e a grávida da murtuosa,

 

E já não há anjos, nem gritos, não há padre

nem alquimia, nem missa do sétimo dia,

há todo um coro de aflitos:

“hoje morre-se mais do que se morria!!”

 

Ah! Se soubéssemos quantos morreram no bantustão,

nas esquinas da guerra, nas sombras da traição,  

quantos especialistas, quantas parangonas,

a cantar os vivos e os mortos de Alfarrobeira,

três dias deixados no campo a ser comidos pelo cão.  

 

Gaza não mora aqui, nem sequer o Curdistão,

tudo é jogo de mais bandeiras, tudo vale outro cifrão.

Venham anjos dos céu gritar ao infinito,

de asas brancas, de rosto roxo, 

de olhar azul maldito,

em cada alma bate um coração,

aplaquem a ira, sosseguem a guerra,

nem ouço quem diz: “vai mas é para tua terra”,

“venham anjas do Senhor levem as suas almas ao paraíso”

 

MR, 12/06/2025 12h-18h80



Fonte: DN, "Acidente aéreo na Índia entra para os 10 mais mortíferos de sempre. Recorde as maiores tragédias da aviação", foto: "EPA/SIDDHARAJ SOLANKI", Diário de Notícias, em: https://www.dn.pt/sociedade/recorde-os-maiores-acidentes-de-avia%C3%A7%C3%A3o-de-sempre


quinta-feira, junho 05, 2025

Pinheiro Manso na Aurora

Pinheiro Manso na Aurora

               Ao meu irmão Pinheiro Manso

Lembrando o prédio do fundo de Sidónio M.

O Pinheiro que está no fim,

todos os dias chama por mim.

Nos ramos centelhas de Deus,

nas raízes o Reino dos Céus.

 

Asas de anjo negro,

espada de luz a brilhar,

peste, castigo e degredo,

por a humanidade iluminar.

 

O Pinheiro que está no fim,

no ermo espera por ti:

vive a tua paixão,

emenda caminhos

perdoa a traição.

 

O Pinheiro que está no fim

pouco sabe da morte,

senhora do gosto agridoce,

vulto sinistro e contente,

na demanda de toda a mente.

 

Se a vires nas encruzilhadas,

nos caminhos nas estradas,

diz-lhe ontem, agora e amanhã,

diz-lhe sempre: hoje não!

 

© Miguel Raimundo

2 de junho de 2025 7h45 / 3 de junho de 2025, 10h40 

(viagem Póvoa da Isenta / Fonte Boa / Hospital Distrital de Santarém) 



Foto de RW. Azinheira junto ao forno de cal e ao Pinheiro Manso



segunda-feira, junho 02, 2025

É Natal, é Natal, .... é cruel… (não) faz Mal?

Fonte da imagem: https://theinfosphere.org/File:Xmas_Story.jpg 

 

É Natal, é Natal,

Morrrem criancinhas

Não faz mal não faz mal

Todas queimadinhas,

Uma perna aqui, outra acolá

E o aquele bracinho de quem será?

 

Tudo bate o pé,

Em Gaza, em Kiev, Cabinda e no Curdistão

Tudo bate o pé

na velha mina, que bonita explosão!

 

Vamos pôr o sapatinho,

A Coca-Coca já o trouxe, mas onde?

a cidade ruiu e campo fugiu.

 

Olha o Pai Natal,

de barbas branquinhas.

Traz o saco cheio de armas fresquinhas.


Adaptação estudantil
Coimbra 2000-2005





sábado, abril 19, 2025

presenças de São Rafael

Naquele tarde de verão eras tu Tobias

e senti o Anjo, falei com o vento,

vi um Arcanjo, asas tisnadas de sol,

corpo pleno de mar, ergue o momento

em clamor, para de sete pragas

ao humano salvar.

 

Naquele tarde de areia, era eu criança

e tu o Anjo?

Naquele peixe o fel,

naquele fumo o amor,

naquele mar a promessar,

de respeitar a nossa dor.

 

Naquela brisa da duna

senti o valor da Fé

vi ao Arcanjo nas nuvens,

com fogo quente em meus pés.

 

Era tarde, era dia, era noite, era alegria,

falhou-me a força do crer, o juramento traí

para sempre no mar me banhei,

àquele Anjo não mais vi.

 

Naguib N’aura

Foz do Arelho (10/06/2023), 00h26


Archangel Raphael with Bishop Domonte
sec. XVII
Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682)
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rafael_(arcanjo)

domingo, março 30, 2025

Carta de Amor a Florbela

Ser poeta não sina, é maldição,

entre a poesia e a quinina,

escolheste a vida e a paixão

ser poeta é ser mulher...

 

como quem beija uma flor,

este príncipe «de quem e de além dor»

é viver nas trevas da luz, no frio do calor.

fazer da noite o teu eterno dia...

 

fazer da sorte sôfrego azar, na vida buscar a morte,

no seu gentil regaço, como um sorriso 

que se liberta do cansaço

 

ser poeta é Ter aqui nestes versos de ternura,

nunca te deixar morrer em tal verdura,

e ainda para além do tempo, consolar teu sofrimento.

 

© Miguel Raimundo

30/03/2025 (08h00)

segunda-feira, novembro 28, 2022

Cabul no coração

 (I) olhares de menina

 

olhares de menina, facas de algoz,

medo e quinina, ao ficarmos a sós.

desejo e vingança, farsa e mudança,

 

se todo o/a profeta for essa criança?

se mãe de Maomé fosse de esperanças?

também lhe batias no quarto

ainda lhe mutilavas o seu rosto?

sempre lhe darias o desgosto.

 

fogem os incréus dos saduceus,

longe das promessas, sem vida

sem sonho, só a morte: sem Deus.

 

(II) preces de Fátima

 

estudantes de ciência do sagrado

vós que entregais alma ao criador,

sabiéis que Moamé morreu de amor?

 

imãs ocultos das montanhas,

padres loucos das patranhas,

ontem, servos do Senhor e do seu gado,

ouvi a voz de Fátima na prece à sexta-feira:

"não nos ates mais à cabeceira!

não no tires à noite a nossa voz,

feito de suor, de sangue e de ternura

não nos tires de dia a nossa face,

feita da luz, de Deus e de verdade".

 

(III) umma

 

sentado à sombras das(dos) profetas,

sobra loucura nas vozes dos(das) poetas.

submissão ao anjo ou ao destino?

vontade de nunca trair os olhos do menino.

 

que ensinais vós para além da guerra?

a seca, as ânsias, e um xaile negro sobre a terra?

lembrem a voz Issa martirizado: "sede verdedeiro,

o pecado, a vergonha, o orgulho, a mentira, calha a todos,

não subirá montanha imculada, quem a pedra possa atirar primeiro."

 

morreram homens, mulheres e os(as) profetas,

na esperança de um amor maior que o dos(as) poetas,

e vós que leis no livro o grande poema

só trazes ao lume novo a mesma cena:

a dor, a morte, o medo de há mil anos,

sonhando sobre toda a terra novos-velhos amos.

 

estudantes de ciência do sagrado,

vós que entregais alma ao criador,

sabíeis que o amor não é pecado?

 

vós que professais centelhas desta Fé

escutai no deserto a voz daquele que É:

na água dos caminhos bebe a verdade

todas/todos somos de Deus uma metade,

e a outra tem por nome liberdade.

 

Naguib N'aura 

(1434 H / 2021-17-08, 7h44)



La Mort de Sardanapale, Eugene Delacroix, (versão reduzida), 1844 
Philadelphia Museum of Art

 

domingo, junho 27, 2021

final de Sevilha

em terras de campeador, 

depois de Geraldo o sem pavor,

erguem-se de novo os heróis, 

gritos pátrios sem temor. 


são gente de futebóis, 

em senda de glória e de festa 

mais quente mil sóis, 

a jogar a tanto calor,

na capital da sesta. 


triunfemos sobre os flamengos, 

credores e amigos de outros tempos, 

com grei, paixão e amor, 

na sendo do feito novo, 

como no tempo da aventura 

do mar, da bola e da bravura. 


Vasco Bernardo

27/06/2021, 20h28


sábado, maio 15, 2021

bruxas a comer pão-mole

as pragas rogadas, 

ao redor da mesa,

olhares fugidos,

rancores discretos. 


as bruxa seletas

de verniz e cristal,

as vozes funestas

nas tardes de sol. 


esconjura este mal

de inveja e segredos,

lava este fel


por debaixo dos medos.

amar verdade, a vida ou bem,

bebendo a treva que o mal contém. 


Miguel Raimundo

Santarém 15/05/2021 (01h43)


Francisco Goya
Bruxas no Ar
Óleo sobre tela - 43,5x31,5 cm
1797-1798
Madrid, Colecção Jaime Ortiz Patiño



segunda-feira, janeiro 25, 2021

temperança

viver na velha iluminura

sem toque, sem desejo

quase fome, porém lisura.

nem tão só o doce bejo,


sobra à mesa da fartura

ignora sem qualquer pejo

dos manjares a formusura,

das delícias a ventura. 


nos entretempos em jejum,

suplica benévola candura:

alma santa, sem tonsura. 


da água sobeja frescura

corpo mole ou a pedra dura?

sem saudade, nem mesura. 


Santarém, 15/07/2018, 10h25

Do livros "Sete poemas (s) em pecado Treze virtudes (s)em poesia"

terça-feira, junho 30, 2020

nas portas do medo.

mundo insano,
mundo pequeno,
aldeia de trevas
sem trevo de trova.
mundo insano,
tecto sem segredos,
palavras e medos

aldeia só nossa,
promessa que canta
amanhã e flores
na terra do nunca?

na terra do sempre
um grito de paz.
janelas de amor
no mundo do medo.
mundo pequeno
capaz de ser grande.
um soco no estomâgo,
janelas de amor
nas portas do medo.

Miguel Raimundo
Santarém 17/04/2020 (1h23, "ano 0 do desastre")

quinta-feira, abril 30, 2020

da guerra e do virus (ou unidos no medo)

como nas trovas de outrora 
o fim, a fome e a peste.
fossem agora as trombetas
fosse enfim o Juízo,
quando virão os cometas?
quando fazer o que é preciso?

e todos unidos no medo, na dor, 
no fitar da morte em segredo.
mesmo assim, insiste a guerra
em não sair do cavalo, 
em não deixar nossa Terra.

e tudo unido no medo, 
tristeza segura na certeza de que hoje 
morreu alguém mais sozinho do que ontem,
quase como se antes de um segredo,
nunca morresse ninguém...

pudesse a fome sumir, pudesse a guerra acabar?
tudo fica mais perto, tudo ficava mais bem,
como aos vivos nos convém, 
nessas cores dos arcos-íris, 
nessa vontade da vida
enfim... a morte, a peste pandémica
todos unidos no medo, todos sofrendo a dor, 
para quando toda essa cor?
todos e mais todas unid@s no amor. 

(c) Miguel Raimundo, 
Santarém (PT), 6/04/2020


O Triunfo da Morte
Pieter Bruegel, "o Velho",
c. 1562, óleo sobre madeira
Museu del Prado (Madrid, ES)


terça-feira, novembro 05, 2019

Peregrinação a Fátima por Damasco

Na estrada de Damasco somos todos
pecadores singelos de pouca fé,
perante a visão do outro em esplendor
descubro novo Deus feito de amor.

"Es tu aquele que é?"
pergunta 'inda a dúvida da razão,
sem querer escutar ao nazareno
a verdade da montanha e do sermão.

a todas(os) tratremos por irmã(o)
sem idade, sem peleja, sem talião,
no natal desta manjedoura
todos nascemos de mulher.

seja à mãe do profeta justo feito Deus
a nossa secreta e singela confissão.
seja à mãe de mulheres e de homens feita Deus(a),
a nossa apócrifa e verdadeira peregrinação.

Miguel Raimundo
12/05/2019, 10h58 (Santarém) 


A Conversão de São Paulo  de Domingos António Sequeira
Óleo sobre tela,  Século XVIII, 126 cm x 165 cm, Casa dos Patudos Museu de Alpiarça (Alpiarça)

terça-feira, setembro 24, 2019

barco à deriva / campo de refugiados

hoje morri em Saná
tinha dois anos e tal,
tu cantas a dor
dos que vivem menos mal.

hoje morri em Damasco
tinha seis anos e tal.
tu celebras o carrasco
dos que vivem menos mal.

hoje sobrevivo neste barco
entre o vasto mar e o charco.
tu compras tudo barato
vidas, casas, carros, sapatos.

hoje subi à velha cruz,
sou puta, meu pai Jesus.
tu rezas sempre prostrado 
ao Deus e ao vizinho do lado.

hoje mataram-me em Tripolí,
tinha sete anos e tal,
tiram-me imensas fotos
como se fosse tudo fatal.
todos vivem bem aqui,
entre os barcos e os papeís
de todos os mundos crueís
dos morrem menos mal.

Miguel Raimundo, 
Santarém, 07/09/2019 (1h00)


sábado, setembro 21, 2019

poema de me (ch)amar Fernando


só de me lembrar de ti,
sei que não sou eu.
sonho de todos nós,
permaneço aqui, à espera.

quando voltas?
eu podia amar-te, como António,
podia ser a alma plena,
pequena, com toda calma,
se não houvesse outros futuros.

ainda ontem (ou seria há sete anos?),
sonhei com nós os cinco
(o Botto não apareceu...,
o Alexandre tinha mais que procurar,
o Mário já tinha morrido,
faltavam-nos mulheres,
sempre te fenecem as mulheres,
nos planos infinitos).

ficámos ali tranquilos,
no cais do comboio,
sem espera, sem nevoeiro.
na outra banda do Ser
sentindo como o universo vasto
fica assim aninhado
num ponto qualquer.
«quando o mar se cumprir
e o sol acordar.»
(disseste tu, ou não?
por certo não foi o Alberto.)
dei-te um beijo demorado
e segui o meu caminho
para a outra banda do agora.


Miguel Raimundo
02/01/2015 (16h04)


Foto: comboio na Estação de Santarém
Wikepédia, Wikimedia Commons

sexta-feira, abril 12, 2019

estórias da Capuchinho

a estória é tão antiga
como tempo da memória.
no bosque fica a casinha,
vive o lobo,
passea a criança
e dorme a velhinha.

se fosse o bicho amigo
e se estranhos não houvesse?
cuidados sempre a mãe teria
estremosa em seus conselhos,
numa voz de melodia.

nas velhas veredas do conto
parou a criança a apanhar violetas
bolos, mel e flores,
atraem os velhos odores,
onde os estranhos são leitores
e as meninas são poetas.

quem leu tudo aprendeu?
e ficou o caçador a meio caminho
pois se os estranhos são os poetas
e as meninas são leitores
nas palavras lobos se escondem,
entre mel, bolos e flores.

Miguel Raimundo
12/04/2019, 20h39 (Santarém)
Imagem do filme 
A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves)
realizado por Neil Jordan, 1984


domingo, março 10, 2019

Sermão de Salomão na Montanha

santo seja o velho livro,
mas lá verás o pranto e o perdão,
não fala só de guerra, mas sempre de paz
toda e qualquer história de salvação.

ninguém é uma alma em vão.
a mulher seja quem for ela:
é a mulher da vida dela!
sem fantasmas de solidão
(não é tua, não é minha.)

traição, ciúme e posse
são sinónimos de opressão,
os escribas falharam a tradução.
sobrevive uma guerra de milénios,
num adultério sem explicação.

porque ainda há lapidação?
não é por amor ou por traição,
não por fé ou por tradição
é por vingança, é por talião.

assim, sobra para os justos o sermão
dito ou escrito na velha montanha.
hoje não queremos mais que paz no planeta.
gritamos a todos os algozes destas terras:
nasceu de mulher o teu profeta!

Miguel Raimundo
Santarém 09/03/2019 - (21h14)


Pedro BerrugueteSão Domingos Presidindo a um auto de fé (1475). 

domingo, junho 10, 2018

a Deus, "Pai-nosso"


a d. António Francisco Marques 1927-1997)
I Bispo de Santarém

por mão de minha mãe,
vi o milagre em Vossa luz,
esse resplandecer eu recussei,
por vergonha, por lucidez,
por medo talvez....
de ser a verdade Vossos castigos,
Vossa férrea lei.

lia os velhos escribas com sofreguidão,
(a mente, o juízo e a paz toldei,
acometido por todo o mal em convulsão
como uma voz dos tempos me esfaqueado
em ventos mil, em sede vil.)
procrastinei a vida no "livro da revelação",
esqueci a verdade simples de um "sagrado coração".

no verso desta dúvida sacrifico o meu perdão,
(a Vós pelos séculos de escravidão!),
pois se a fé apenas não me salva
ainda penarei por minhas falhas em boas obras,
assim, de tentação em tentação escolho o pecado:
como se cumprisse fatal destino aziago.

E agora? Clamo sempre a Vós,
confessando no escuro a minha dor,
as minhas costas voltadas ao amor,
Clamamos a Vós, quase apenas na aflição
e ao Filho crucificado pelo Pai-Nosso
rosto de nossa dor, nessa secular paixão.
esquece-mo-Vos nas horas certas de "dar e ficar contente". 
procuro, na pobreza deste verso,
renovado, singelo e terno baptismo,
almejando a amargurada, mas plena, comunhão.

Miguel Raimundo 
Natal/2017, Santarém

[Imagem "Cristo negro", pau preto(?) Brasil (?),  foto do autor]